O (falso) problema de tesouraria

João Mineiro, 18 de Fevereiro de 2010 6:51

O Grupo Sporting tem um problema de tesouraria? Seguramente que sim, frequentemente utilizado nos últimos anos como justificação para a alienação de património. No entanto a tesouraria não está na génese da situação financeira do Sporting, aliás, os desfasamentos mais ou menos prolongados entre e entrada e saída de dinheiro fazem parte do negócio “desporto”, mais concretamente do futebol.

A montante do problema de tesouraria encontra-se sim um défice crónico de exploração ao qual se junta o brutal peso dos juros. Porém, se os juros são muitas vezes apontados como culpados, não me recordo de até hoje ser discutido o défice de exploração, antes pelo contrário – de forma regular são feitos pedidos para que se aumente o orçamento do futebol com o objectivo de aumentar os resultados desportivos e consequentemente as receitas.

Como tal, pretendo durante as próximas semanas discutir as “dores” financeiras do nosso Sporting, começando pelo diagnóstico, e não pela terapêutica como habitualmente sucede. Por esta ordem então abordarei:

- O défice de exploração anual
- O peso dos juros
- O ponto de sobrevivência no défice de exploração
- Gerar receitas!
- Reduzir custos!
- Os ciclos exógenos e endógenos de construção da demonstração de resultados
- O Passivo: composição
- O Passivo: soluções
- O futuro da SAD
- O futuro do Grupo Sporting e do Clube

No final espero ter demonstrado que não existe nenhuma fórmula mágica para devolver o Clube aos sócios. Apenas um conjunto de medidas pensadas, razoáveis, e desenvolvidas ao longo de 4 a 6 anos poderão voltar recuperar as nossas finanças e, consequentemente, a nossa capacidade de investimento.

Saudações Leoninas !

8 Responses to “O (falso) problema de tesouraria”

  1. Danielw diz:

    João, eu acho o teu artigo interessante, e há muito que defendo que os juros pagos pelo Sporting são o principal problema financeiro do clube. No entanto, partindo do pressuposto que negociamos com a banca com vista a reduzir os encargos dos juros pagos pelo nosso clube, nada nos garante que a negociação será positiva, no sentido de surtir efeitos reais, ou seja, a decisão final estará sempre da banca. Eu apoiei (e continuo a apoiar) o projecto Ser Sporting, mas não iludamos os Sócios do Sporting. Como forma de legitimar um possível novo acordo, algo terá de ser dado em troca. O quê, mesmo? Aí, nesse ponto, residirá a qualidade e visão da vossa gestão.

    Sempre disposto a colaborar, até porque esta temática me diz muito,

    Daniel, aluno da Universidade Católica de Lisboa (Administração e Gestão de Empresas).

    SPORTING SEMPRE!

  2. João Mineiro diz:

    Caro Danielw, obrigado pelo comentário e pela oferta de colaboração.

    Reduzir o serviço da dívida e as formas de diversificar o passivo e alongar os prazos de pagamento são temas que pretendo abordar nos posts “O Passivo: composição” e “O Passivo: soluções”. Mas tens toda a razão que isso implica negociar com a banca, apresentando garantias fiáveis.

    Quanto ao juros, concordamos todos que são um problema, mas o que pretendo demonstrar é que a resolução do mesmo só será possível depois de resolver o défice de exploração.

    SL

  3. Alexandre Paiva diz:

    Tenho assistido nervosamente ao declínio do nosso clube.Incrédulo é o meu estado de espírito ao observar as constantes provocações de que verdadeiros sportinguistas têm sido alvo.
    Chegou a hora de dizer basta.Estou pronto para ir à luta pela Grandeza do clube.
    Quanto à redução de custos seria fácil fazê-lo.Analisando a estrutura da Academia, observamos que ela comporta grande peso na sua orgânica,onde,por exemplo uma pessoa que num passado,2003,desempenhava várias tarefas,neste momento essas mesmas tarefas são realizadas por 2 ou 3 pessoas.
    O gabinete de Scouting,que não realiza trabalho efectivo e lucrativo,pelo contrário importa todos os dias jovens que na prática vêm passar umas férias a Portugal à conta do clube e vá-se lá saber a quem o clube paga mais,com este gabinete a gastar dinheiro mensalmente sem proveito para o clube.
    A estrutura técnica recheada de elementos,com jovens recrutados e remunerados por uma empresa,alegadamente do Director da Academia.
    O número exagerado de residentes,para depois se irem buscar Caicedos,Angulos,Motas,Pinillas,Tiuis,etc,etc.
    Com uma reflexão séria e honesta,coisa que não passa na cabeça da mairia destes dirigentes,seria possível reduzir os custos.Assim houvesse vontade de engrandecer o Sporting.
    VIVA O SPORTING.
    Estou na LUTA.

  4. João Mineiro diz:

    Caro Alexandre Paiva, sem dúvida, a redução de custos de estrutura já devia ter começado… ontem !

  5. Luis Henriques diz:

    Uma pergunta simples e sem segundas intenções:

    O Sporting Clube de Portugal não foi sempre servido por dirigentes com alta reputação no campo da Gestão e das Finanças?

    Se sim:
    Então não seria obvio que esses dirigentes conseguissem solucionar um problema que para alguns se afigura de resolução mais ou menos simples?
    Ou será que a resolução é simples no papel, mas depois se afigura tremendamente complicada quando aplicada ao mundo real (futebol)?

    Se não:
    Então pode-se deduzir que as instituições públicas e privadas onde exerceram cargos de chefia eram muito mal governadas?

    Quase todos percebemos; os mais leigos e os mais entendidos, que os juros e o deficit de tesouraria são os principais calcanhares de Aquiles do Sporting.
    Assim sendo deixo aqui mais uma pergunta:

    O Plano de Reestruturação Financeira votado favoravelmente na última AG não vem solucionar o problema dos juros. Esse plano não permite a libertação de verbas na ordem dos 10M/ano?

    Se sim:
    Deduzo que temos uma parte do problema solucionado e faltará solucionar o crónico deficit de tesouraria?

    Se não:
    Qual a solução que preconizaria para obviar este problema premente e asfixiante?

    Na certeza porém teremos sempre que contar com o factor aleatório da bola que entra ou bate na trave ou com os erros sistemáticos dos senhores do apito que cada vez mais decidem a vida financeira dos clubes. Basta atentar nos exemplos do Vitória de Guimarães e da Selecção da Irlanda. Será que algum dia algum clube ou federação vai levar um arbitro ou a sua entidade patronal (depois da profissionalização) a tribunal por perdas e danos.

  6. Francisco Santos Ferro diz:

    Caro Luís Henriques,

    Não sendo especialista na área, permita-me dar o meu ponto de vista sobre algumas das suas questões.

    “O Sporting Clube de Portugal não foi sempre servido por dirigentes com alta reputação no campo da Gestão e das Finanças?”

    Não sei o que significa “alta reputação”, nem se existe algum ranking que classifique essa característica. Posso apenas depreender como “experiência relevante no campo das finanças”.

    “Então não seria obvio que esses dirigentes conseguissem solucionar um problema que para alguns se afigura de resolução mais ou menos simples?”

    NÃO. Porque experiência de gestão na área financeira não confere per si qualquer garantia de boa gestão de um clube desportivo, uma vez que são “core businesses” distintos.

    Pelo que também não se pode inferir que as instituições públicas ou privadas onde exerceram cargos fossem mal ou bem governadas.

    São negócios diferentes, de áreas diferentes, com objectivos diferentes. Um negócio tem objectivos financeiros, outro tem objectivos (ou deveria ter!) desportivos.

    E aqui poderíamos entrar no campo da boa fé ou da falta dela, mas não vamos por aí.

    Sobre o Plano de Reestruturação Financeira, permita-me corrigir:

    - não foi votado na última AG; o que foi votado na última AG foi a transmissão da SCS para a SAD.

    - não me recordo se o plano apresentado permite a libertação de verbas na ordem dos 10M/ano; o facto de não me recordar é grave (e eu tenho boa memória..), porque significa que não existem fontes onde possamos consultar, o que demonstra a forma “confusa” como o referido plano sempre foi apresentado aos sócios.

    - tenho ideia sim que a despesa anual da SAD com juros e outros encargos financeiros andará à volta dos 5M/ano.

    Eu pergunto:

    1. São estes 5 M/ano que vão resolver a nossa falta de competitividade no campo desportivo? Recordo que:
    - recentemente a Sporting SAD gastou/torrou/investiu cerca de 11M€ em passes e outros custos de jogadores de futebol;
    - o Sp. Braga tem metade (será tanto?) do nosso orçamento, pelo que fica inequivocamente demonstrado que o problema da competividade desportiva não é antes de mais um problema de orçamento, mas de gestão desportiva.

    2. Será que os sócios têm bem presente o “preço” a pagar por esses 5M/ano a mais?

    3. Será que, primeiro que tudo, não poderiam ser tomadas outras medidas (de redução de despesa), por forma a evitar a venda do património do SCP?

    4. Será que não se optou pela solução mais fácil, mais simples e que mais agrada a quem nos financia e a quem é accionista da SAD?

    Sobre as soluções preconizadas para as dificuldades economico-financeiras do Sporting, certamente o João Mineiro dará as repostas, enventualmente nos futuros posts.

    Saudações Leoninas!

  7. João Mineiro diz:

    Caro Luís Henriques,

    uma das grandes máximas da finança é: “rendimentos passados não garantem ganhos futuros”. Ou seja, o passado dos dirigentes do Sporting não é do meu especial interesse, mas sim a sua actuação enquanto ao serviço do Sporting Clube de Portugal.

    E de facto sim, a indústria do futebol pode estar sujeita, à primeira vista, a mais variáveis não controláveis que outras sectores da economia. O que procurarei demonstrar num post próximo (”Os ciclos exógenos e endógenos de construção da demonstração de resultados”), é que o sucesso não é o factor determinante para a evolução financeira (salvo num caso extremo, por exemplo, uma vitória na Liga dos Campeões).

    Quanto ao plano de reestruturação financeira há que dizer: não, nos primeiros anos não há qualquer alteração aos montantes pagos em juros. Os VMOCs que se pretende emitir pagam juros a uma taxa semelhante que o Grupo Sporting actualmente suporta. Há apenas uma redução do capital reembolsado que pode ser alcançado através da negociação de prazos e sem necessidade de vender activos desvalorizados.

    Sendo “não” a resposta à sua pergunta, as soluções que preconizo (que constam do programa eleitoral de Jun/09) serão discutidas em detalhe nos próximos posts: “Gerar receitas!”, “Reduzir custos!” e “O Passivo: soluções”.

    Saudações Leoninas !

  8. Sluis diz:

    Caro João,
    Saúda-se esta reflexão sobre o estado das finanças do nosso clube. Parece-me importante esta abordagem até porque negócios pouco claros como o do Sinama-Pongolle justificam um alerta por parte da nação Sportinguista. O meu contributo é deixar no ar a seguinte questão: O que é que uma auditoria externa às sucessivas direcções do clube e SAD iria suscitar, nomeadamente no que respeita às finanças do Sporting. Lanço a duas dicas (antiga e recente)- negócios Tello e Varela.

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